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“A persistência é uma das chaves do sucesso”

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Qual é a explicação para um percurso artístico com tanta visibilidade?

Não há explicação. É a persistência. Estou nisto desde os 16 anos. E tenho que ser sincero: não posso ter agora o mesmo discurso de um rapper de 18 anos. Sou pai de família e tenho outras preocupações. Mas, musicalmente, tenho o meu espaço.

Existe uma forte afirmação identitária através da música hip-hop. Algo nunca visto em Portugal. Como é evidente nem todos conseguiram prosseguir uma carreira musical, até porque a realidade comercial ou industrial no país é exígua, mas fica a ideia que todos se integraram bem socialmente.

Sim, de acordo. Essa integração aconteceu. Do ponto de vista artístico alguns não terão conseguido ir mais longe do que outros, mas é a vida. Neste intervalo de tempo o que aconteceu foi isso: a vida, nas suas mais diversas dimensões. As pessoas fizeram as suas escolhas, formaram famílias e mudaram de atividade ou não. Mas com quem tenho ainda contacto mantém uma ligação emocional com a música. Pode não ser a sua atividade principal, mas haverá de estar lá sempre. Às vezes a dificuldade é acompanhar os tempos. É entender as mudanças. Às vezes não se resiste àquela coisa do “no nosso tempo é que era.” E não pode ser, na minha visão, até porque isso era o que diziam quando quisemos ocupar o nosso espaço. As coisas vão mudando. Olhe-se para hoje. Musicalmente o hip-hop está com uma saúde que nunca teve. Hoje oiço as rádios generalistas e já quase não se ouve rock.

É verdade que no universo globalizado de hoje a cultura hip-hop se tornou dominante nos mercados mais simbólicos, mas não é de hoje. Foi um processo. Aliás, no caso de Portugal o concerto do 50 Cent e de Boss AC em 2005, no Pavilhão Atlântico, naquela que foi a primeira vez que uma celebridade do rap americano aqui atuou, já confirmava essa transversalidade: gente de todas as idades e camadas sociais e assistir. Foi marcante. Quem esteve lá percebeu que algo mudara para sempre.

Totalmente de acordo. Essa ascensão foi um processo e concordo que, no caso de Portugal, esse concerto foi marcante. E sim, com aquela dimensão, em nome próprio, era a primeira vez de uma celebridade do rap em Portugal. Apesar de, no meu caso pessoal, até ter saído de lá com a sensação, sem falsas modéstias, de ter feito melhor trabalho que 50 Cent… [risos]. É verdade que esse predomínio não é novidade mas tem sido ascendente. E isso vê-se pelas rádios mais generalistas que hoje passam muito hip-hop e derivados, estando o rock menos presente. Só para dar um exemplo: a canção Princesa (Beija-me outra vez) não passava na rádio nessa altura. O que furava eram os Da Weasel, mas numa linha de cruzamento de linguagens. Nesse sentido, sem dúvida, que os tempos mudaram muito.

Nos primórdios havia a necessidade de conotar a música com a afirmação identitária. Agora tenta-se afirmar a superioridade comercial ou artística. Talvez acabe por ser inevitável, mas a reafirmação contínua da relevância coletiva do hip-hop, pode ter o efeito perverso de contribuir para a omissão dos percursos artísticos individualizados.

De acordo. O meu último álbum falava disso. Era um registo mais abrangente do que os outros e construído no modelo de banda. Ou seja, olharem para mim como mero rapper, e não como músico, principalmente naquele contexto, era redutor. Sou mais do que isso. Até porque produzo, escrevo e faço outras coisas, nem todas para mim, com abordagens que vão do fado à pop. Sempre fui um melómano ecléctico. Gosto é de música, no sentido mais lato do termo. Por isso quando digo que PrincesaBaza, baza ou Sexta-feira foram grandes êxitos de hip-hop, na verdade foram grandes êxitos da música portuguesa. A abrangência foi essa. Essa é a realidade. Ponto.

Não é fácil fazer carreira da música aqui. Há uns anos, numa entrevista, dizia que é fundamental perceber o terreno que se pisa, não para ceder aos imperativos do mercado, mas para se situar e adaptar aos diferentes contextos, sem nunca perder de vista a sua identidade.  

Nunca tive pudor em falar disso. Se formos ouvir todos os meus discos percebe-se que existem uma série de referências constantes. No primeiro álbum o R&B está lá. O mesmo acontece com as influências cabo-verdianas, com a participação da minha mãe [Ana Firmino] e de Tito Paris. Essas vertentes ainda estão lá hoje. Houve uma altura em que esse eclectismo foi confundido com querer agradar a toda a gente. Nunca foi o caso. Outro exemplo: quando fiz Princesa, um dos meus maiores sucessos na vertente balada R&B, a editora onde estava – a Valentim de Carvalho – não queria que a canção entrasse no álbum. Achava que aquilo não era Boss AC. Eu dizia que estavam errados. Quando olho para trás revejo-me em tudo o que fiz. Tenho-me mantido fiel ao que acho que devo fazer. Apesar da indústria e do país serem pequenos há muita pressão, das editoras ou dos fãs, e aumenta quando se tem sucesso. O difícil não é obtê-lo, mas mantê-lo. Por isso, quando venho de um sucesso massivo e abrangente como Sexta-feira, toda a gente fica parada a olhar para mim a ver se tenho um sábado ou um domingo na manga…[risos]. Eu contrario isso. Quero ter sucesso, adaptar-me, mas não me quero repetir. Porque tenho muito consciente a questão do tempo.

Como é que descreveria um dia normal do Boss AC?

No último mês, acordo, levo as minhas filhas à escola, e depois venho para o estúdio. Noventa por cento das vezes estou sozinho. Os outros dez por cento com pessoas da música. E é isso. Tenho uma relação de amor-ódio com as redes sociais. Por um lado se não estás lá é como se não existisses, mas tento não me expor muito. Aqui também não tenho muita rede o que acaba por não me distrair. Mas também trato de outras coisas porque tenho negócios. Ao final do dia vou para casa e estou com a família. Oiço pouca rádio e sair para concertos é raro. Mas estou muito atento ao que se vai fazendo.

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[Entrevista efetuada por Vítor Belanciano para o Jornal Público]

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