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“Aproveitem a oportunidade de aprender”

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No âmbito do nosso Projeto Interdisciplinar, entrevistámos a escrita Teolinda Gersão.

Teolinda Gersão estudou nas universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, foi leitora de português na Universidade Técnica de Berlim e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada. A partir de 1995 passou a dedicar-se exclusivamente à escrita literária. Viveu três anos na Alemanha, dois anos em São Paulo, Brasil, e conheceu Moçambique, onde se passa o romance A árvore das palavras (1997). Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004. É autora de vários livros de ficção, traduzidos em 11 línguas. Foram-lhe atribuídos os seguintes prémios: por duas vezes o Prémio de Ficção do PEN Clube (O silêncio, 1981, e O cavalo de sol, 1989), o Grande Prémio de Romance e Novela da APE (A casa da cabeça de cavalo, 1995), o Prémio Fernando Namora (Os teclados, 1999), o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco (Histórias de ver e andar, 2002), o Prémio Máxima de Literatura (A mulher que prendeu a chuva e outras histórias, 2008), o Prémio da Fundação Inês de Castro (2008), o Prémio Ciranda e o Prémio da Fundação António Quadros (A Cidade de Ulisses, 2011), o Prémio Fernando Namora (Passagens, 2014) e o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2017 pelo conjunto da sua obra. Alguns dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia.

Qual é a sua opinião sobre a localidade da Trafaria?

Gosto muitíssimo. As margens do Tejo são maravilhosas, é um privilégio visitá-las. E um belo almoço de peixe num dos vossos muitos restaurantes é um programa frequente dos nossos domingos em família.

Como é que analisa o atual Sistema de Ensino em Portugal?

Desde logo sou absolutamente contra o Acordo Ortográfico, que não uniformizou nada e só veio criar confusão. A língua é do povo, não é dos linguistas nem dos governos, e evolui naturalmente com o tempo, mas nunca contra-natura, por decreto.

Sou contra o facilitismo. A escola não existe para divertir os alunos mas para lhes ensinar matérias fundamentais, fazê-los adquirir cultura, e consequentemente capacidade de pensamento crítico. Ninguém pode ter opiniões fundamentadas se primeiro não adquirir conhecimento e cultura.

No seu entender, como será a Escola do Futuro?

Não tenho bola de cristaI… Idealmente, seria sobretudo um lugar onde os alunos se sentissem num ambiente acolhedor, ou pelo menos não agressivo e seguro. O bullying e quaisquer abusos seriam impensáveis, e não haveria ódio, medo nem crispação. Os possíveis conflitos seriam resolvidos através de um diálogo sereno, inteligente e esclarecido .

Seria um lugar onde alunos e professores tivessem prazer em interagir, quer entre os seus pares, quer na relação directa professor-aluno, aluno-professor.

Obviamente os professores teriam grande conhecimento da matéria a ensinar, e os alunos maturidade suficiente para ter desejo de aprender. O número de alunos por turma permitiria dar um apoio mais personalizado, quer aos mais dotados, quer aos menos.

Haveria de certeza a preocupação de a escola ser inclusiva, mas não haveria a obrigação de negar a realidade, nivelando todos à partida pelo nível mais baixo. Uma sociedade mais igualitária e economicamente mais justa seria obviamente um pressuposto garantido.

Quais são os principais conselhos que pode dar aos nossos alunos?

Aproveitem a oportunidade de aprender, podem não ter outra na vida. A cultura vai abrir-vos portas que de outro modo ficarão fechadas.

Não usem tlm nas aulas, nunca se sentem diante de um écran (de TV ou outro) para ver não importa o quê, mas apenas algo que realmente vos interesse muito.

Não passem demasiado tempo no computador, percebam que investigar e adquirir conhecimento pode começar por consultar o Prof. Google, mas nunca se poderá resumir a copy-paste. A vossa cabeça é o mais perfeito computador do mundo, tratem de aprender a usá-la para processar e reutilizar de modo inteligente e produtivo os dados que têm ao vosso alcance.

Aprendam a concentrar-se profundamente, e por muito tempo. A leitura (não só de jornais, mas sobretudo de livros) é um óptimo instrumento de concentração, de estímulo mental e de abertura de horizontes.

Já leram por exemplo o livro A rapariga que roubava livros? Está no vosso programa Ler+. Leiam o livro, e vejam o filme. O cinema, teatro, música, dança, artes visuais, fazem parte da cultura, e andam de mãos dadas com os livros.

Leiam muitos, para começar leiam pelo menos 15 minutos por dia.

Qual é a grande memória que guarda da sua passagem pela Escola?

O clima de segurança, o respeito pelos outros, e uma natural aceitação e integração das diferenças. Estudei em Coimbra, no Liceu Infanta D. Maria, do 1º (actual 5º) ao último ano.

O liceu era público e gratuito, e tinha muito melhor ensino do que os colégios privados, que pagavam muito menos aos professores.

Não sentíamos nenhuma diferença de raças nem de classe social, considerávamos que todas éramos igualmente estimáveis, e que o nosso valor dependia muito mais do nosso carácter do que das nossas capacidades. Sentíamos que não havia vidas inúteis, e toda a gente teria o seu lugar no mundo, em qualquer campo em que trabalhasse. As melhores alunas não eram mais consideradas do que as outras, cada uma era aceite como era. Vivi no liceu, inconscientemente,  uma grande lição de humanidade e de humildade. Quem era muito bom em qualquer área – ginástica, escrita, canto, desenho etc.- não era admirado por isso, era estimado (ou não) conforme o seu carácter, o que implicava a capacidade de aceitar e estimar os outros tal como eram, e por conseguinte também de se aceitar naturalmente a si mesmo, sem orgulho nem vaidade.

Ter auto-estima é tranquilizador e fonte de energia, mas só se alcança com carácter e princípios éticos fortes.

Precisamos de vocês, que hoje são muito  jovens, para construir uma sociedade mais feliz e com mais auto-estima, onde a corrupção não fique impune, e a ganância,  o ódio e a irracionalidade não imperem. Precisamos de vocês para que a Terra se torne um planeta não ameaçado mas sustentável, uma grande casa comum, acolhedora e receptiva para todos os seus habitantes.

[Perguntas selecionadas pelas turmas do 3º Ciclo, numa iniciativa “Trafaria Mais” / BCRE]

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